quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Tensão dispara na Catalunha após operação policial para barrar referendo de independência

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Milhares de pessoas protestam no centro de Barcelona pela decisão de prender membros do Governo regional que comandavam a organização do plebiscito

A tensão entre o Governo da Espanha e as autoridades da Catalunha disparou nesta quarta-feira diante da tentativa dos catalães de realizar um referendo de independência da região para se separar do resto da Espanha. A polícia espanhola deflagrou pela manhã uma operação para barrar o plebiscito que o Governo regional planeja para o próximo 1 de outubro. Os policiais chegavam com mandados de busca e apreensão em 41 escritórios das Secretarias do Governo catalã que trabalhavam na organização do referendo. Após um dia inteiro percorrendo diferentes locais, a polícia prendeu 14 pessoas, membros do comando para a preparação da consulta, e apreendeu 10 milhões de cédulas de voto.

Ao longo do dia grupos de  militantes independentistas reunidos na frente de diferentes prédios do Governo catalão vaiaram a polícia espanhola e tentaram atrapalhar a operação. Já à noite, após a polícia cumprir os mandatos e levar presos os organizadores do referendo, 40.000 pessoas lotaram a praça de Catalunha, no centro de Barcelona, para protestar contra a atuação do Governo espanhol e defender a independência.

Por que a Catalunha quer a independência?

A Catalunha soma 19% do PIB da Espanha e 12% da população do país. Embora nunca tenha sido independente, tem uma língua e algumas características culturais próprias. Desde o começo do século 20 cresceu na região um movimento nacionalista, que já nos anos 30 tentou declarar a independência de forma unilateral. Após a recuperação da democracia na Espanha, em 1979, a Catalunha conseguiu uma importante autonomia do Governo central. Ao longo desses anos, os nacionalistas sempre estiveram no Governo regional. Nessa época, eles pediam mais autonomia e sobretudo mais dinheiro já que se queixavam de que estavam bancando demais o caixa comum de toda a Espanha para ajudar o desenvolvimento de regiões mais pobres. Embora exigissem o reconhecimento nacional da Catalunha, os grupos nacionalistas aceitavam continuar dentro da Espanha sempre que conseguissem algum tipo de status político especial. Mas tudo mudou nos últimos dez anos.

Desde dias atrás a tensão na Catalunha vinha aumentando pela intenção dos nacionalistas, que comandam o Governo regional – a chamada Generalitat — de fazer o referendo apesar de essa manobra ter sido considerada ilegal pelo Tribunal Constitucional da Espanha. A polícia já tinha realizado nos dias passados operações para impedir a colocação de cartazes que chamavam a população a votar na consulta, enquanto o Governo da Espanha tomou o controle das contas da Generalitat. O Ministério Público ainda avisou que processaria todas as pessoas que colaborarem com a organização do referendo, dentre elas 712 prefeitos de toda a região, que soma 948 municípios.

Quarta-feira foi resultado de anos de tensão acumulada

Mas a tensão chegou ao ponto máximo nesta quarta-feira com a primeira operação que atingiu ao próprio Governo regional e que acabou, pela primeira vez, com a detenção de dirigentes políticos. Os protestos, com inúmeros panelaços, continuavam em Barcelona e outras cidades da região cerca da meia-noite. Coletivos sociais como o clube de futebol Barcelona divulgaram notas contra a atuação policial. Nos teatros de toda a região foi lido um manifesto no mesmo sentido.

O chefes dos Governos da Catalunha e da Espanha trocaram recados através de pronunciamentos oficiais. O catalão Carles Puigdemont acusou ao Governo de Madri de "impor um estado de emergência e suspender de fato o auto-governo da Catalunha". O primeiro ministro espanhol, Mariano Rajoy, respondeu horas mais tarde:  "O referendo é uma quimera. Voltem à lei e à democracia. Estamos defendendo os direitos de todos os espanhóis, incluindo os catalães". Rajoy também explicou que a polícia deflagrou a operação em cumprimento ao mandado de um juiz. Os principais partidos políticos da Espanha apoiam a posição do Governo de centro-direita de Rajoy e defendem que a Constituição espanhola não permite o referendo.

Nos últimos anos a solicitação catalã de mais dinheiro foi crescendo até se tornar um lema: "A Espanha nos rouba”. Desde 2010, no meio a pior crise econômica que viveu o país em muito tempo, os nacionalistas foram pouco a pouco se encaminhando em posições independentistas. Nunca ficou claro que a opinião majoritária do povo fosse favorável a se separar da Espanha. Aliás, a última pesquisa feita pelo próprio Governo de Catalunha faz poucos meses assinalou que 49% da população era contra a independência e 41% a favor. Mas os dois principais partidos espanhóis, conservadores (PP) e socialistas (PSOE), com um grande apoio da opinião pública do resto do país, sempre recusaram a celebração do referendo.

O Governo catalão decidiu então tomar o caminho da desobediência e convocar a consulta apesar de ter sido declarada ilegal pela Justiça. Dia após dia o confronto se foi esquentando até acabar num quadro cheio de perigos e incertezas, com um forte racha entre as instituições catalãs e o resto da Espanha, e dentro da própria Catalunha, entre os nacionalistas e os que não concordam com a independência.

EL PAÍS 

Imagem: Protesto no centro de Barcelona contra o Governo espanhol | SUSANA VERA | REUTERS

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