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sábado, 21 de outubro de 2017

A MORTE DA HISTÓRIA



John Pilger

Um dos mais louvados "eventos" da televisão americana,The Vietnam War, arrancou agora na rede PBS. Os directores são Ken Burns e Lynn Novick. Aclamados pelos seus documentários sobre a Guerra Civil, a Grande Depressão e a história do jazz, Burns diz acerca dos seus filmes sobre o Vietname: "Eles inspirarão nosso país a começar a conversar e pensar acerca da guerra do Vietname de um modo inteiramente novo". 

Numa sociedade muitas vezes destituída de memória histórica e sob o domínio da propaganda do "excepcionalismo", a guerra do Vietname "inteiramente nova" de Burns é apresentada como "trabalho histórico épico". Sua luxuosa campanha publicitária promove o seu grande apoiante, o Bank of America, o qual em 1971 foi incendiado em Santa Barbara, Califórnia, como símbolo da odiada guerra no Vietname.

Burns diz que está grato a "toda a família do Bank of America" a qual "desde há muito apoia veteranos do nosso país". O Bank of America foi um apoio corporativo a uma invasão que matou talvez até quatro milhões de vietnamitas e devastou e envenenou uma terra outrora generosa. Mais de 58 mil soldados americanos foram mortos e estima-se que aproximadamente o mesmo número se tenha suicidado.

Assisti ao primeiro episódio em Nova York. Ele não deixa dúvidas desde o princípio acerca das suas intenções. O narrador diz que a guerra "foi começada em boa fé por pessoas decentes em resultado de entendimentos incorrectos decisivos, a super-confiança americana e a Guerra Fria.

A desonestidade desta declaração não surpreende. A fabricação cínica de "falsas bandeiras" que levaram à invasão do Vietname é uma questão factual – o "incidente" do Golfo de Tonquim, em 1964, que Burns promove a verdadeiro, foi apenas um deles. As mentiras grassam numa multidão de documentos oficiais, nomeadamente os Pentagon Papers, os quais o grande denunciante Daniel Ellsberg divulgou em 1971.

Não havia boa fé. A fé era apodrecida e cancerosa. Para mim – como deve ser para muitos americanos – é difícil assistir ao amontoado de mapas do "perigo vermelho", entrevistas não explicadas, arquivos cortados de modo inepto e sequências choronas de campos de batalha.

No press release da série na Grã-Bretanha – a BBC irá apresentá-la – não há qualquer menção a mortos vietnamitas, só a americanos. "Estamos todos em busca de algum significado nesta tragédia terrível", diz uma citação de Novick. Muito pós moderno.

Tudo isto será familiar àqueles que observaram como os media americanos e a grotesca cultura popular reviram e serviram o grande crime da segunda metade do século vinte: desde The Green Berets (Os boinas verdes) e The Deer Hunter (O caçador) para Rambo e, ao assim fazer, legitimaram subsequentes guerras de agressão. O revisionismo nunca para e o sangue nunca seca. O invasor merece piedade e é expurgado de culpa, enquanto "buscam algum significado nesta tragédia terrível". Alusão de Bob Dylan: "Oh, onde tem estado, meu filho de olhos azuis?"

Penso acerca de "decência" e "boa fé" quando recordo minhas primeiras experiências como jovem repórter no Vietname: a observar hipnoticamente como a pela cai de crianças camponesas submetida ao napalm tal como velho pergaminho e as crateras de bombas que deixaram árvores petrificadas e engrinaldadas com carne humana. O general William Westmoreland, o comandante americano, referiu-se ao povo como "termites". 

Portugal | A DESASTROSA PRIVATIZAÇÃO DA PROTECÇÃO CIVIL



Palavras do Tenente-Coronel Costa Mota, presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas ( AOFA ), em entrevista à TVI: 

É FÁCIL: em vez do negócios de milhões com aluguer de aviões, basta 

– dar meios aéreos à Força Aérea (que não os tem) 
– dar dinheiro para combustível e manutenção (que não tem)
– dar mais meios humanos (que não tem, nem qualificação para combate a incêndios); 

LUCRO PARA PORTUGAL: 

– ficamos com os meios para Portugal, 365 dias por ano (e não na fase Charlie ou outra);
– a manutenção é assegurada 365 dias por ano pela Força Aérea (sem custos adicionais);
– os pilotos ganham o mesmo 365 dias por ano (o que ganham agora);
– o Estado deixa de gastar milhões de euros com privados. 

PORQUE É QUE A FORÇA AÉREA NÃO FAZ ISTO? 

– Porque os sucessivos governos não o quiseram... 

O vídeo deste entrevista está aqui (ver entre os minutos 21 e 25). 

Os negócios & negociatas com serviços de protecção civil (meios aéreos, Siresp, etc) resultam da desastrosa ideologia privatizadora que impera em Portugal. Esta levou a que o Estado se demitisse das suas funções e despertou a sanha do capital privado interessado em apanhar o botim. As dezenas de mortes verificadas nos incêndios florestais deste ano são consequência do neoliberalismo imposto há muito por governos PS, PSD e CDS. 

É preciso dar meia-volta.

Resistir.info

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Portugal | MATANÇA



Ora a perda de cem vidas humanas, nas circunstâncias em que ocorreu – dois picos de vagas incendiárias muito concentradas no tempo e imprevisivelmente diversificadas no espaço –, não é um acidente: é uma matança, um selvático assassínio em série.

José Goulão | AbrilAbril | opinião

Anuncia-se que, por ora, as chamas estão extintas; fazem-se os enterros, recolhem-se os salvados, secam-se as lágrimas, respeita-se o luto, limpam-se os destroços, recontam-se as poupanças – se ainda as há – deitam-se mãos à obra porque a vida continua e sempre é menos dura sob o abrigo de um tecto. Até à próxima.

Sem surpresa, e como já percebemos, agora segue-se a campanha feroz contra o governo, exigem-se cabeças de ministros, sobe de tom a troca de soundbitescomo balas, exercita-se a caridadezinha público-privada, provavelmente teremos de assistir às repugnantes práticas de necrofilia política dos que, habituados a tratar mal os vivos jamais respeitarão os mortos.

Cem mortos e dezenas de feridos é o rescaldo provisório da hecatombe dos incêndios deste ano em Portugal. Ano após ano, fogos florestais sempre houve; mas não há memória de uma tragédia humana com esta envergadura, de uma insegurança, de um sentimento de fragilidade e de terror que se estende a todos os cidadãos que habitam no território português.

Onde havia jogos sujos de madeireiros e se apostavam grandes interesses imobiliários e florestais tornou-se este ano comum o sacrifício de vidas humanas. Salta à vista, sente-se no peito, que o País ficou desestabilizado num tempo em que, finalmente, recomeçava a olhar em frente.

Escrevi há dois meses que as circunstâncias qualitativamente diferentes dos fogos deste ano exigiam abordagens, medidas e respostas diferentes. Lembrei o caso, também único, do Verão de 1975, quando a multiplicação de incêndios, então centralizados no Alentejo, tinha como objectivo político não apenas a destruição da Reforma Agrária mas também a expansão de um clima de pânico que forçasse o país e os seus habitantes a desejarem um recuo drástico na Revolução.

E admiti a hipótese de estarmos agora perante uma desestabilizadora operação de terrorismo puro e duro, uma prática que, embora não pareça a quem se regula pela comunicação social dominante, não se cinge às malfeitorias do Daesh, nem sequer ao universo do radicalismo islâmico.

PORTUGAL | As coisas estão mais complicadas para Costa



O governo Costa faz em novembro dois anos

Ana Sá Lopes | Jornal i | opinião


O Presidente da República fez, na noite de terça-feira, o melhor discurso que alguma vez foi feito no passado recente, em Portugal, por um chefe do Estado. Exatamente porque demonstrou, para quem ainda tinha dúvidas, para que serve um chefe de Estado. Vamos lá fazer o exercício de pensar que os 107 mortos dos incêndios mais as desastradas intervenções de Constança, Costa e Jorge Gomes se tinham passado em 2004 durante o governo Santana Lopes – o Presidente da República não teria esperado por esse inverno de 2004 para dissolver o parlamento. Teria tomado a decisão logo em outubro. 

António Costa sobreviveu politicamente aos incêndios de Pedrógão Grande, como o prova a extraordinária vitória que obteve nas eleições autárquicas. Mas vai ser mais difícil uma reconciliação popular depois do que se passou no domingo. Apesar de ontem, na Assembleia da República, António Costa parecer ter interiorizado algumas das lições da véspera da comunicação ao país de Marcelo – e a sua performance no debate parlamentar, despojado da arrogância e autossuficiência que o caracterizam, foi indiscutivelmente boa –, as coisas tornaram-se mais complicadas doravante. Se havia um antes e um depois de Pedrógão Grande, a fronteira agora aumentou substancialmente.

António Costa tem o problema de outros tantos primeiros-ministros que o precederam – Passos Coelho, Sócrates, Cavaco Silva, por exemplo, eram também profundamente teimosos e incapazes, a partir de um certo momento, de estabelecer uma relação com o mundo das pessoas normais.

A cápsula do poder tende a capturar a melhor das inteligências – e Costa é profundamente inteligente, ao ponto de ontem ter conseguido recuar no estado de dissociação da realidade que estava a revelar relativamente aos horríveis fogos de domingo.
O governo Costa faz em novembro dois anos. É menos do que governou Sócrates, Cavaco ou Passos Coelho. E nenhum deles, a começar por Sócrates, foi fustigado, num período tão curto, por um Presidente da República da maneira que Costa foi. Se isso lhe vai servir para adquirir uma qualidade que não lhe assiste – alguma humildade –, não se sabe. A bolha do poder e o permanente contacto com yes men não ajudam a um melhor programa.

Moção da oposição timorense contesta programa e forma insensata da formação do governo



Díli, 19 out (Lusa) - Os três partidos da oposição timorense subscrevem a moção de rejeição apresentada no parlamento nacional ao programa do Governo, contestando quer o conteúdo do documento quer a forma "insensata" como o executivo foi formado.

O texto de seis páginas da moção de rejeição está assinado pelos líderes das três bancadas da oposição, Arão Noé Amaral (CNRT), Fidelis Magalhães (PLP) e Luís Roberto da Silva (KHUNTO), que entre si representam 35 dos 65 deputados. O CNRT é presidido por Xanana Gusmão e o PLP por Taur Matan Ruak, dois líderes históricos do país.

A Constituição prevê a queda do Governo, liderado por Mari Alkatiri e apoiado pelos 30 deputados da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin) e do Partido Democrático (PD), se o programa for rejeitado duas vezes.

No documento os signatários referem que o Presidente da República nomeou um primeiro-ministro "sem se preocupar com a falta de uma maioria parlamentar" e afirmam que apesar de a decisão não ser inconstitucional é "politicamente insensata e imprudente".

Deveria o Presidente da República, argumentam, "ter procurado soluções alternativas de Governo com apoio maioritário no Parlamento Nacional, seguindo assim o exemplo dos seus antecessores".

PM timorense diz que teve garantia do CNRT de apoio a programa e Orçamento



Díli, 18 out (Lusa) - O primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, disse hoje que Xanana Gusmão, presidente do maior partido da oposição, o CNRT, lhe garantiu apoio total ao programa e ao Orçamento do Estado, de que o Governo necessita por ser minoritário no parlamento.

"Xanana Gusmão disse-me que me ajudava a garantir o programa e o Orçamento do Estado. Eu disse que não tinha 33 deputados [a maioria] e ele disse: ´não te preocupes´", afirmou, numa intervenção no Parlamento Nacional.

Alkatiri disse que esperaria pelo regresso a Timor-Leste de Xanana Gusmão - está atualmente numa visita à Madeira - para que em conjunto possam explicar à sociedade timorense esses compromissos.

"Não há segredo. Esta é a realidade. Este é o compromisso com o irmão Xanana Gusmão e que agora divulgo", afirmou o líder do Governo.

Os comentários de Alkatiri, no terceiro dia consecutivo de debate sobre o programa do executivo no Parlamento Nacional, surgem numa altura em que a oposição maioritária se constituiu numa Aliança de Maioria Parlamentar (AMP) que quer ser alternativa de Governo.

2016 | SEBASTIÃO, EMPRESÁRIO PORTUGUÊS RAPTADO EM MOÇAMBIQUE… SILÊNCIO À NYUSI



Governo português “espreme” contraparte moçambicana exigindo esclarecimentos sobre o sumiço do seu concidadão há mais de um ano em Sofala

Portugal continua indignado com a alegada demora e o mutismo do Governo moçambicano em relação ao rapto de um cidadão lusitano, há 15 meses, na província de Sofala. Desde essa altura a esta parte, não se sabe o que é que aconteceu, efectivamente, ao cidadão em causa, facto que está a originar crispação entre os dois países. Aquele país acusa ainda o Executivo da chamada “Pérola do Índico” de estar a ignorar, há meses, as insistentes démarches da embaixadora de Portugal em Maputo, com vista a obter possíveis novos desenvolvimentos em torno do caso. E diz que o Governo do Presidente Filipe Nyusi decidiu, agora, pautar por aquilo que considera “um blackout quase absoluto”. E avisa que não se vai deixar vencer pelo cansaço.

Trata-se do empresário Américo António Melo Sebastião, raptado a 29 de Julho de 2016, no distrito de Marínguè, em Sofala, por indivíduos não identificados.

O seu paradeiro é desconhecido e o Executivo moçambicano não dispõe de nenhuma novidade. Por conseguinte, parece haver um profundo retraimento diplomático entre Portugal e Moçambique.

ANGOLA | Estado de graça



Luísa Rogério | Jornal de Angola | opinião

O Presidente João Lourenço regressou à instituição que se inscreve, em caixa alta, no seu percurso político.

Foi deputado, presidente do Grupo Parlamentar do MPLA e, por último, 1º Vice-Presidente da Assembleia Nacional. João Lourenço entrou pela porta grande do sumptuoso edifício do Parlamento, e pela primeira vez na condição de Presidente da República, com o propósito de falar sobre o Estado da Nação. Desse modo, deu-se cumprimento ao disposto no artigo 118º da Constituição da República de Angola. 

O discurso, considerado transversal sob os diferentes pontos de vista, terá ido ao encontro das expectativas de sectores distintos da população, incluindo os mais críticos. Em diferentes plataformas, diz-se, e com destaque para as redes sociais, que o Presidente tocou em pontos chaves. Em linhas gerais, disse aquilo que muita gente desejava ouvir, que outros tantos não esperavam ouvir tão cedo.

João Lourenço inspirou o seu discurso na premissa da resolução dos problemas do povo, tendo reiterado o foco do mandato numa aposta maior no sector social e na diversificação da economia. A coragem para “melhorar o que está bem e mudar o que está mal, com a serenidade e a firmeza”, segundo as palavras do Presidente da República, esteve omnipresente no discurso que traçou as linhas mestras do programa de governação para os próximos cinco anos. 

A primeira comunicação, depois do acto de posse, deu vazão a vários ângulos de análise, apesar de nem todos espaços mediáticos os terem explorado de forma exaustiva. A identificação dos elementos fulcrais, denominados “desafios da mudança”, esteve bem patente na abordagem madrugadora que deixou recados políticos muito claros.

HÁ QUE PÔR FIM A “UMA SAÚDE MERCENÁRIA EM NOME DO MERCADO”!



Martinho Júnior | Luanda

Desde 2007, quando se começaram a melhor detectar os impactos na saúde angolana das questões que se prendem aos comportamentos típicos do capitalismo neoliberal, que tenho vindo a espaços a chamar a atenção para a impraticabilidade e amoralidade relativas do que se tem vindo a fazer.

Desde o primeiro ano de independência que no sector da saúde interesses egoístas e privados têm vindo a provocar desgastes a todos os níveis ao sistema de saúde do estado angolano, mas foi a partir de 2002 que no âmbito da “terapia neoliberal”, esses desgastes mais se têm evidenciado, por que foi a partir desse ano que o estado mais investiu na saúde nacional!

A delapidação do património e o desvio de medicamentos têm sido uma constante ao longo dos tempos, uma prática impune que socorre as iniciativas privadas dos mercenários!

Há que dar urgentemente combate a essas práticas!

Por isso há que, de forma abrangente, se chamar a atenção de todos os angolanos PARA UMA CUIDADA REFLEXÃO!

Os impactos neoliberais têm atingido Angola, provocando desequilíbrios e fazendo aumentar o fosso das desigualdades!

Há toda a necessidade patriótica e humana de reverter essa situação!

No "ESTADO DA NAÇÃO" pronunciado pelo Presidente da Republica camarada João Lourenço, há um indicador a ter em conta: começar a impedir que alguns impactos neoliberais causem mais estragos para além dos que já provocaram!

Para Angola, o mais importante continua a ser RESOLVER OS PROBLEMAS DO POVO!

Boaventura: A ILUSÓRIA “DESGLOBALIZAÇÃO”



Não nos enganemos: vitória de Trump e Brexit expressam uma nova fase de globalização – mais dramática, mais excludente e talvez capaz de eliminar a democracia

Boaventura de Sousa Santos | Outras Palavras | Imagem: Adrian Paci, Centro de Permanência Provisória (2007)

Em círculos acadêmicos e em artigos de opinião nos grandes meios de comunicação tem sido frequentemente referido que estamos entrando num período de reversão dos processos de globalização que dominaram a economia, a política, a cultura e as relações internacionais nos últimos cinquenta anos. Entende-se por globalização a intensificação de interações transnacionais para além do que sempre foram as relações entre Estados nacionais, as relações internacionais, ou as relações no interior dos impérios, tanto antigos como modernos. São interações que não são, em geral, protagonizadas pelos Estados, mas antes por agentes econômicos e sociais nos mais diversos domínios. Quando são protagonizadas pelos Estados, visam cercear a soberania do Estado na regulação social, sejam os tratados de livre comércio, a integração regional, de que União Europeia (UE) é um bom exemplo, ou a criação de agências financeiras multilaterais, tais como o Banco Mundial e o FMI.

Escrevendo há mais de vinte anos1, dediquei ao tema muitas páginas e chamei a atenção para a complexidade e mesmo o caráter contraditório da realidade que se aglomerava sob o termo “globalização”. Primeiro, muito do que era considerado global tinha sido originalmente local ou nacional, do hamburger tipo MacDonald’s, que tinha nascido numa pequena localidade do meio-oeste dos EUA, ao estrelato cinematográfico, ativamente produzido no início por Hollywood para rivalizar com as concepções do cinema francês e italiano que antes dominavam; ou ainda a democracia enquanto regime político globalmente legítimo, uma vez que o tipo de democracia globalizado foi a democracia liberal de matriz europeia e norte-americana e, na versão neoliberal, mais norte-americana que europeia.

Segundo, a globalização, ao contrário do que o nome sugeria, não eliminava as desigualdades sociais e as hierarquias entre os diferentes países ou regiões do mundo. Pelo contrário, tendia a fortalecê-las. Terceiro, a globalização produzia vítimas (normalmente ausentes dos discursos dos promotores do processo) que teriam agora menor proteção do Estado, fossem elas trabalhadores industriais, camponeses, culturas nacionais ou locais, etc. Quarto, por causa da dinâmica da globalização, as vítimas ficavam ainda mais presas aos seus locais e na maioria dos casos só saíam deles forçadas (refugiados, deslocados internos e transfronteiriços) ou falsamente por vontade própria (emigrantes). Chamei a estes processos contraditórios globalismos localizados e localismos globalizados. Quinto, a resistência das vítimas beneficiava por vezes das novas condições tecnológicas tornadas disponíveis pela globalização hegemônica (transportes mais baratos, facilidades de circulação, internet, repertórios de narrativas potencialmente emancipatórias, como, por exemplo, os direitos humanos) e organizava-se em movimentos e organizações sociais transnacionais. Chamei a esses processos globalização contra-hegemônica e nela distingui o cosmopolitismo subalterno e o patrimônio comum da humanidade ou jus humanitatis. A mais visível manifestação deste tipo de globalização foi o Fórum Social Mundial, que se reuniu pela primeira vez em 2001 em Porto Alegre (Brasil) e do qual fui um participante muito ativo desde a primeira hora.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

AMIGOS DOS INCÊNDIOS | PSD e CDS-PP cortaram mais de 20 milhões na defesa da floresta



O anterior governo, com Passos Coelho como primeiro-ministro e Assunção Cristas como ministra das Florestas, cortou o orçamento do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) em um quarto, entre 2011 e 2015.

O orçamento de despesa da entidade pública responsável pela gestão do património florestal do Estado e das áreas protegidas foi altamente afectado pelos cortes orçamentais do anterior governo. Entre 2011 e 2015, o orçamento caiu mais de 25%, passando de mais de 82 milhões de euros para pouco mais de 61 milhões durante esse período.

A fusão da Autoridade Florestal Nacional e do Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade em 2012, que criou o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), resultou num corte de 10 milhões de euros no seu financiamento, logo no primeiro ano completo do governo do PSD e do CDS-PP, com Passos como primeiro-ministro e Cristas como ministra da tutela.

Até à derrota eleitoral de 2015, o orçamento do ICNF foi sofrendo cortes sucessivos, perdendo outros 10 milhões de euros até ao final da legislatura. O orçamento para investimento foi o que mais sofreu a partir de 2013: nesse ano passa de 9 para 3 milhões de euros; em 2014 é praticamente obliterado, passando para 500 mil euros.

Foi a queda do anterior governo que permitiu aumentar, ainda que de forma muito insuficiente, o investimento na defesa da floresta contra incêndios e, particularmente, no funcionamento das equipas de sapadores florestais. Os cerca de 14 milhões de euros anuais reservados para a defesa da floresta contra incêndios durante os anos do PSD e do CDS-PP passaram a 32 milhões em 2016 e, no caso das equipas de sapadores florestais, o compromisso financeiro para o seu funcionamento passou de 9 para 26 milhões de euros.

Mas aqui fica também evidente a falha na concretização das medidas, já que este reforço das equipas de sapadores florestais, apesar de prevista nos plano do Fundo Florestal Permanente do ICNF de 2016 ainda não foi concretizada.

AbrilAbril

64 MAIS 42 IGUAL A 106… | Fogos, incompetência e pouca-vergonha invadiram Portugal



É fácil de somar mas é muito doloroso de sentir a amargura da perda de vidas humanas por desleixo e incompetência dos que em principio deviam servir o Estado. 

64 mais 42 totaliza 106. Para já esse é o balanço ainda provisório das vidas humanas que morreram esturricadas pelos fogos que lavraram em Portugal desde Pedrógão, em Junho, até agora, em Outubro. Pode ler aqui a última atualização, em Notícias ao Minuto: Proteção Civil confirma: Incêndios do fim de semana fizeram 42 mortos

O atual governo, com o primado de António Costa, levou com todas as culpas pelo sucedido. A oposição, CDS e PSD, eleitoralistas, procuraram fazer uma “lavagem” ao facto de terem sido governo durante décadas e nunca levarem a sério o  cadastro e ordenamento do território nem de fazerem as reformas adequadas das florestas. Nunca deitaram as mãos ao fenómeno da desertificação do território devido à migração do interior para o litoral. Muito pouco ou nada se preocuparam com o desenvolvimento do interior de Portugal e consequente fixação de indústria e demais atividades económicas que também fixassem os oriundos dessas regiões nas terras onde nasceram. Obviamente que ao PS cabe também tais responsabilidades do passado porque junto com CDS e PSD foram por décadas governo, contudo as lágrimas de crocodilo hoje vistas e as palavras ocas hoje escutadas no debate parlamentar pelos três partidos do denominado “arco da governação” não passaram de um exercício de hipocrisia, de lavar as mãos sobre a tragédia de que todos eles são responsáveis diretos e indiretos, política e moralmente. Responsáveis de facto. Indignos atores num drama que só por ser tão terrível não possui a mínima hipótese de virar por uns segundas em comédia. Por isso aqui tem o debate ou o arremedo de algo kafkiano que para além da tristeza nos carrega de mágoa, repulsa e revolta. Leia, se não conhece a “peça”: Debate: Das "desculpas" de Costa, às acusações à "ministra do eucalipto"

Entretanto a ministra da Administração Interna demitiu-se, e Costa teve de aceitar a demissão. Não se percebe a razão porque não aconteceu antes, visto que no dizer da ministra “já antes tinha manifestado ao PM Costa a intenção de se demitir”. Bem, mas para os portugueses diziam exatamente o contrário. Trapaceiros, vilões, estúpidos que ao longo dos anos ainda não perceberam que a mentira tem a perna curta – diz o povo e é verdade. Não por acaso, para uma vasta maioria de portugueses, Passos Coelho não é mais nem menos que um grande aldrabão. E agora temos Costa, com esta da ministra Constança. Ex-ministra, já. Nada fica por aqui, o secretário de Estado da Administração Interna também confirmou que está demissionário. Pudera. E agora faltam os restantes responsáveis de organismos que deviam evitar esta calamidade. Demitam-se. Proteção Civil, bombeiros, comunicações, etc, etc. Para já saem a ministra e o secretário de estado. Saiba aqui: Após ministra, secretário de Estado confirma que também está de saída

Por hoje a abordagem finda aqui. Desejamos profundamente que não nos apareçam mais notícias de mais vítimas mortais. 106, na senda assassina e destruidora dos fogos e da incompetência e abandono do Estado para com os seus cidadãos, já é demasiado e uma enorme vergonha.

Há muito tempo que está mais que provado o falhanço escandaloso dos partidos políticos integrantes do tal “Arco da Governação”, CDS, PSD, PS. Que tal memória nunca mais se apague.

MM | PG

terça-feira, 17 de outubro de 2017

IRRACIONALIDADE HUMANA!



 Martinho Júnior | Luanda  

... “Una importante especie biológica está en riesgo de desaparecer por la rápida y progresiva liquidación de sus condiciones naturales de vida: el hombre.

Ahora tomamos conciencia de este problema cuando casi es tarde para impedirlo”…

… “Cesen los egoísmos, cesen los hegemonismos, cesen la insensibilidad, la irresponsabilidad y el engaño.
Mañana será demasiado tarde para hacer lo que debimos haber hecho hace mucho tiempo”.


1- Por incrível que possa parecer a um extraterrestre recém-chegado à Terra, ainda que sábio conhecedor das infinitas linguagens da nossa Torre de Babel, o homem está hoje em unidade, com os sentidos em uníssono nas coisas que ao espaço dizem respeito em pleno século XXI, mas dilacera-se à superfície, na agónica atmosfera, como nas profundezas do subsolo, como se estivesse no século XII, ou XIII, ali onde se sente feudalmente sugado até à morte…

Será um efeito da gravidade do misterioso planeta azul que é sua casa comum?…

Mesmo que o extraterrestre conseguisse decifrar todas as linguagens e gestos humanos, ser-lhe-ia indecifrável esse comportamento do homem com os pés no chão e consciência no espaço, mesmo que percebesse muito de psicologia, de sociologia, da antropologia, de história, de economia, de finanças e até do homem voltado para a fascinação exterior…

A Terra assemelha-se de facto, com essa humanidade, neste ano da graça cristã de 2017, a uma azotada nave de loucos!...

LÍDERES EUROPEUS SEM FILHOS, SEM INTERESSES DIRETOS NO FUTURO DA EUROPA



Alberto Castro*, Londres

CURIOSO!

Phil Lawyer fez um balanço sobre os líderes da Europa

O recente eleito presidente da república francesa, Macron, não tem filhos
A Chanceler, Angela Merkel, não tem filhos
A PM do Reino Unido, Theresa May, não tem filhos
O PM de Itália, Paolo Gentiloni, não tem filhos
Mark Rutte da Holanda, não tem filhos
Stefan Lofven, da Suécia, não tem filhos
Xavier Better, do Luxemburgo, não tem filhos
Nicola Sturgeon, da Escócia, não tem filhos
Jean-Claude Juncker, Presidente da CE, não tem filhos

Portanto, um grande número de pessoas que tomam decisões sobre o futuro da Europa, não tem quaisquer interesses diretos nesse futuro!

*Alberto Castro é correspondente de Afropress em Londres e colabora em Página Global

As dores dos sobreviventes | O FOGO, A SOLIDARIEDADE E A MORTE



Manuel morreu a lutar pelo amigo enquanto, sem saber, a sua casa também ardia

O telefone tocou e Manuel saltou da casa, sem hesitar. Perderia a batalha contra as chamas. O fogo que deixou um rasto de escuridão em muitos lugares matou cinco pessoas em São Joaninho, Viseu.

Maria Helena secava as lágrimas invisíveis à conversa na berma da estrada com um homem sentado na mota, com o capacete enfiado na cabeça e a voz gasta. Santa Comba Dão, em Viseu, está como muitos lugares da região centro. As matas estão mais magras, o chão fuma e não deseja ser mais pisado, os muros das casas transformaram-se em muralhas e os troncos estão da cor da alegria da terra. Os caminhantes caminham à procura de mensageiros da fortuna. Outros lamentam-se. Maria Helena diz que foi um pesadelo. Uma vizinha até lhe pediu ajuda para tirar os animais sem vida do barracão que ardeu. Não teve coragem. Ainda não tem.

Esta zona está praticamente toda sem comunicações. Nem nos correios foi possível fazer um telefonema. Há gente no estrangeiro em sobressalto, há más notícias por dar, há alívios por aliviar. Nada. Quase nada. Quando interrompidos ou questionados sobre as coisas, que teimam descrever como "nunca visto", o tom é sempre terno, de quem prefere aproximar a afugentar. É meigo. Ou talvez derrotado. Puxa os olhos para o chão, os ombros têm menos confiança hoje, a ressaca da desgraça.

A TSF continua a percorrer aquelas estradas onde apenas as lembranças têm cor. As conversas são todas sobre o mesmo. Há prantos a dois em supermercados. Há palavras feias apontadas aos governantes. Contam-se histórias e fados, revelam-se paradeiros e os caprichos crus da morte. Percentagens de corpos queimados. Foi-se quase tudo. A terra onde as batatas luziam, as couves ganhavam músculo, os animais levavam a sua vida. Foi-se a terra da gente que fazia daquela gente a gente da terra. Quase tudo se perdeu. A esperança, outra desaparecida entre as chamas. Resta a solidariedade do povo.

O telefone de Manuel, em São Joaninho, tocou a uma qualquer hora do dia. Era um amigo, estava aflito, as chamas ameaçavam a sua habitação. Manuel não pensou muito. Saltou da cama, deixou a hesitação para outros tempos e lá foi. Esteve na luta. Não saberia que a sua casa também seria invadida pelo fogo. A ignorância salvou a casa do amigo. Mas a besta não lhe poupou a vida. Este homem perdeu a batalha, sem lutar a sua, em nome da amizade.

Graça e Eduardo, mulher e marido, cunhados de Manuel, contam a história. Entrámos por acaso no café do casal, em busca do improvável que aconteceu: ter rede no telefone para ligar para a rádio. O incêndio levou cinco pessoas de São Joaninho.

"Era muito de ajudar", conta Eduardo, com as lágrimas nos olhos, sobre Manuel. Ver um velho derrotado, com o olhar perdido no nada, a contar os trocos na mão -- talvez uma muleta para se distrair e não chorar a valer --, promove o estômago ao estatuto de ginasta de alto gabarito das olimpíadas de 1976. A voz que o acompanha há 76 anos fala baixinho. "É assim, o que é que se há de fazer?", diz e voltaria a dizer.

Graça, 70 anos, estava mais serena, mas quanto mais falava mais lhe fugia o pensamento e a realidade lhe apertava os ossos. A voz tremia. Parava. Recomeçava. Lamenta-se das cinzas que lhe ocuparam a casa de banho do estabelecimento, que agora estava com água a mais. É um desgosto. O desconforto em não querer que os forasteiros vissem o cenário diz muito desta gente.

"É triste, é triste", suspira Eduardo. "Não tem havido luz e água. Tive de ir aos correios para ligar para França para falar com o família." Foi assim que lhes contou sobre Manuel. Enquanto conversávamos, chegam familiares. Os abraços e as lágrimas ocupam o palco. Não sabem quando é o funeral. Graça quase parece sentir-se culpada por isso. "Só se vê cabos destruídos. Destruiu tudo por onde passou. Vento, fumo e chamas", conta Eduardo, enquanto a esposa imitava o som do vento, furioso. "Vruuu, vruuu".

O fogo levou gente da terra, separou famílias, juntou famílias, queimou fotografias, formas de viver e meter o pão na mesa. "Sempre tivemos muita sorte aqui. Não me lembro de nada assim", sentencia Graça. "Eu vi logo. Como isto andava, ele vinha aí..."

Ele. Outra vez, é assim que o tratam nestes lugares. Quase dá para imaginar alguém a deixar um rasto de derrota e ruínas, com o pior que os homens levam nas veias. Ele matou terras e gente. Um homem morreu a lutar pela casa do amigo, enquanto a sua também ardia. Manuel não sobreviveu para viver o desgosto. Ele levou Manuel.

Hugo Tavares da Silva | REPORTAGEM TSF | Foto: Nacho Doce/Reuters (imagem não corresponde à reportagem) | Mais fotos no original | Título PG

CHE GUEVARA | Como é ser irmão do meu irmão



Quando passam 50 anos da morte de Che Guevara na Bolívia, o Expresso falou com Juan Martín, o irmão mais novo. Para quem Che é, acima de tudo, Ernesto. Ele quebrou um silêncio de décadas e escreveu um livro para o dizer

Ser ou não ser sempre fez a diferença. E ser ou não ser irmão de Ernesto Guevara de la Serna é algo avassalador. “Cada vez sou menos Juan Martín e mais o irmão do Che Guevara”, diz ao Expresso o mais novo dos quatro irmãos do Comandante. A família manteve um silêncio de meio século antes que Juan Martín Guevara, hoje com 74 anos, acedesse a falar sobre o que se passou. Sobre quem foi, de onde veio, o que fez, o que deixou, como morreu aquele homem que tantas vezes viu chegar e partir, até um dia o ver partir de vez. Sobre a circunstância de ser irmão de um mito, de um ícone tão indiscutível quanto vilipendiado. Falar custou-lhe a reprovação seca da irmã Celia, a segunda mais velha do clã. E a oposição acentuou-se quando escreveu, com a jornalista Armelle Vincent, o livro “Mon Frère, le Che”, publicado em França e já traduzido para 11 línguas — e acabado de sair em Portugal com o título “O Meu Irmão Che” (ed. Objectiva). “Ela estava mesmo contra isso. Sabe do livro e não gosta. Não me deixou de falar, mas há coisas de que é proibido falarmos. O livro é uma delas.” As suas mais de 300 páginas são apenas “um degrau” na decisão de procurar uma compreensão de Che diferente da “imagem distorcida, mítica e distante” que as pessoas têm dele.

Durante duas horas de conversa ao telefone desde a sua casa em Buenos Aires, Juan Martín Guevara evocou o seu famoso irmão, 15 anos mais velho do que ele. Lembrou-se de Ernesto, de Ernestito, de Teté — como só na família era conhecido —, de Fuser — diminutivo de “Furibundo [furioso] Serna” —, de Chancho, até à sua derradeira transformação em Che. “Costumo dizer que sou irmão de sangue de Ernesto e companheiro de ideias do Che. Nunca, nem eu nem os meus irmãos, sentimos nisso uma carga. O que não quer dizer que sempre tenha sido fácil. Não foi”, começa ele, que foi militante político e esteve oito anos preso durante a ditadura militar argentina e que passou por situações tão contraditórias como aquela que (conta) lhe aconteceu na cadeia. Estava a ser interrogado duramente por um polícia e pensou o pior. No fim, ele apenas comentou: “Que grande homem era o teu irmão! Pena que fosse de esquerda.”

A família Guevara de la Serna era, ela mesma, um poço de contradições. Possuía nome e antecedentes aristocráticos, mas andava sempre escassa de dinheiro e havia surgido de uma transgressão — o casamento entre Ernesto Guevara Lynch e Celia de la Serna y Llosa, que ocorreu contra a vontade dos pais dela. “Essa ideia da ‘família aristocrática e oligárquica’ do Che é uma parvoíce. A oligarquia define uma posição de riqueza e de poder. E a aristocracia tem a ver com o autoritarismo familiar. Ora, se bem que o resto da família fosse abastada, nós não tínhamos nem riqueza nem poder. Pelo contrário, pela inconstância do meu pai, estávamos sempre com dificuldades económicas. E certamente não éramos condicionados pelos hábitos tradicionalistas da linhagem. A minha mãe foi uma feminista sem o ser, antes do tempo. Fumava, vestia calças, cortou o cabelo, odiava a lida da casa, fazia o que lhe apetecia. Nem sequer se punha a pensar que a podiam questionar. Quem não gostasse que fosse dar uma volta. O meu pai era manipulador e egocêntrico e ligava mais à opinião dos outros. Mas, por outro lado, tinha muita lata. Era supersticioso e fazia coisas que eram muito estranhas aos olhos dos outros”, recorda Juan Martín.

PORTUGAL | Não pode ficar tudo na mesma



Mariana Mortágua* | Jornal de Notícias | opinião

É óbvio que, depois de Pedrógão, dos relatórios entretanto conhecidos, e dos trágicos incêndios da noite de domingo, não pode ficar tudo na mesma. E a ministra da Administração Interna deve ser a primeira a reconhecê-lo. O interminável verão deste ano mostrou como o nosso país está tão impreparado para lidar com um futuro, que já é o presente, de extremos climáticos. Não são apenas os meios de combate disponíveis, é isso e tudo o resto. O planeamento florestal que não existe, e a predominância do eucaliptal; os planos municipais de defesa da floresta contra incêndios não executados ou sequer aprovados; o sistema de comunicações arcaico; a desestruturação das redes de comando da Proteção Civil; os concessionários das estradas (Ascendi), ou responsáveis pelas infraestruturas elétricas (EDP), que há décadas não cumprem as suas obrigações de limpeza de combustível florestal.

O atual Governo tem responsabilidades, mas o tiro ao alvo das culpas fáceis deixará de lado todas as outras deficiências, acumuladas ao longo de décadas, nas autarquias, na Proteção Civil, na política florestal e também nos privados. Quando tudo falha, é o Estado que falha.

No próximo dia 21 haverá um Conselho de Ministros extraordinário, marcado para analisar os incêndios de Pedrógão. O que se exige ao Governo neste momento é que faça mais que mudar nomes, e que, para além do apoio às vítimas, apresente um plano de reestruturação do próprio dispositivo nacional de combate e prevenção de incêndios.

Os relatórios que agora conhecemos, e que se somam aos que já existiam, e os técnicos que ouvimos apontam caminhos claros: um corpo profissionalizado de defesa da floresta composto por sapadores florestais e bombeiros; a inclusão de cientistas da floresta e da meteorologia nas equipas de prevenção e combate; alteração da estrutura fundiária e da composição da malha florestal, com redução da área de eucalipto e cedência mínima ao abandono; reestruturação da Proteção Civil, que deve ter cadeias de comando experientes, claras e definidas; responsabilização e apoio às autarquias nos planos de defesa da floresta; meios de apoio às populações em caso de emergência. Finalmente, e não de menor importância, regras claras para acabar com o negócio dos incêndios, dos interesses da madeira aos dispositivos de combate.

Não pode ficar tudo na mesma, e as mudanças têm de ser tão estruturais como os problemas e deficiências que as justificam. É isso que deve ser exigido ao Governo. E em tempos de discussão orçamental, é de esperar que estas escolhas tenham o seu reflexo na distribuição dos meios financeiros do Estado.

*Deputada do BE

Portugal | O INFERNO LEVOU-OS 100 DÓ NEM PIEDADE



Porque não alguns fogos postos para desgastar a “geringonça”?

Primeiro 64 pessoas foram consumidas pelo fogo na zona de Pedrógão. Entre domingo e segunda-feira mais 36 pessoas foram consumidas pelos fogos, aqui e ali, em Portugal. Soma, até agora, 100 vítimas dos fogos. Sem dó nem piedade. Sem que se vislumbre responsabilização dos que não a demonstraram e nem a praticaram. Grassou a incompetência por resultado de políticas erróneas que levaram ao abandono de uma reforma florestal e agrícola séria que preservasse os bens e as pessoas das regiões limítrofes à floresta. E assim acontece há décadas. Responsabilidades dos governos de Cavaco Silva e seguintes. Talvez até de Mário Soares quando na crista da onda chefiou os governos no pós 25 de Abril de 1974. Do salazarismo ou do caetanismo nem se fala porque na época tudo era muito diferente, nem as alterações climatéricas eram tão notadas e sentidas, nem a corrida ao abandono das terras acontecia tão gravosamente, nem havia a tal política desbragada e devastadora dos eucaliptais. Tempos de miséria e repressão que colavam as pessoas às terras onde nasciam. Ou isso ou emigrarem, para fugirem da fome e da guerra colonial.

Critica-se António Costa e o seu governo, que há dois anos exerce o cargo. E os outros, e os governos antecedentes? Não foram eles que contribuíram grandemente para esta tragédia?

E os interesses estabelecidos que lucram e enriquecem com os fogos? Quem são? Quem os investiga e os responsabiliza criminalmente justificando-se? Há ou não aviões que incendeiam a floresta? Ao longo de anos vimos tornados públicos testemunhos que afirmaram que sim. Que viram… Não se sabe que em tempos idos as investigações assim provassem. Até é muito provável que nem investigações tenham acontecido. E atualmente justifica-se algum tipo de investigação profunda sobre a origem de tantos fogos e de fogos que eclodiram à noite? Investigações para além dos casos isolados de dementes incendiários, ébrios, servos, irresponsáveis da pastorícia precisam-se.

Foram 100 pessoas que morreram, sem dó nem piedade. Provavelmente vamos chegar à conclusão que as vítimas mortais são mais de 100. Doloroso. Terrível. Revoltante. E porque não alguns fogos postos para desgastar a “geringonça”? Quem investiga a sério?

Segue-se o Expresso Curto, a cumprir a sua função. Uma peça opinativa relevante, a dar umas no cravo e outras na ferradura. Aparentemente andando e fazendo o caminho que  mais interessa a alguns (poucos) e menos aos milhões de portugueses. É o Expresso, do senhor Balsemão, um barão (entre outros) da informação, da desinformação… e  da manipulação. É ver os seus status e os feitos dos seus animais amestrados.

CT | PG

ANGOLA | Governo está completo, é hora do trabalho



Víctor Carvalho | Jornal de Angola | opinião

Com a nomeação e subsequente tomada de posse dos secretários de Estado, o Presidente João Lourenço tem, finalmente, a sua equipa governamental formada e pronta a trabalhar para responder ao desafio de melhorar o que está bem e corrigir o que está mal.

Independentemente da avaliação ou do capital de expectativa que cada nome dos elementos que integram essa equipa pode suscitar junto da opinião pública, a verdade é que será o seu desempenho prático a transmitir se as escolhas de João Lourenço foram, ou não, acertadas.

Para já, o que se pode dizer é que está criada uma enorme expectativa em redor daquilo que o próprio Presidente da República conseguirá fazer, sobretudo se tivermos em linha de conta as suas promessas eleitorais e mais algumas que depois inseriu no seu discurso de tomada de posse e que, certamente, serão reafirmadas amanhã na Assembleia Nacional.

A sociedade, onde se inclui a classe política, como não podia deixar de ser, está atenta aos mais recentes desenvolvimentos protagonizados por este Governo, não obstante o pouco tempo em que está em funções, e acredita que muitas das promessas feitas no calor da campanha serão efectivamente cumpridas.

Na sua primeira reunião, o Governo decidiu, e bem, aprovar um programa para executar nos próximos seis meses, de modo a garantir as bases onde depois ficarão sustentadas acções de empreendimento mais profundo.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O CHE E A SUA POALHA HUMANA!...


Martinho Júnior | Luanda  

O homem, esse passou como um cometa em vida, um cometa plasmado duma mensagem de liberdade milenar e a nós cidadãos do mundo, honra-nos em vida seu exemplo, sua clarividência e sua coragem, própria dum resgate de milenar dignidade e identificada com as mais justas aspirações de toda a humanidade!

1- A primeira coisa que há a avaliar quando a referência é o Che, é a exigência a cada um de nós, cidadãos do mundo: até onde e até que ponto se interiorizaram a memória e os ensinamentos essenciais do Che, de forma a transformá-los em prática?... Até que ponto ousamos sonhar face aos imensos resgates que se nos impõem, mais ainda quando o capitalismo neoliberal assola todos os obscuros rincões do mundo?...

Se em África fizéssemos uma viagem de moto, para ler ao vivo nas veias abertas do continente, provavelmente os percalços seriam ainda maiores dos que os vividos pelo Che, por que às feridas sociais que se colocavam então na América, juntar-se-iam as feridas antigas de África e as de hoje, levadas a cabo pelas portas escancaradas pelo neoliberalismo, sem qualquer visível obstrução!

Minha própria vida tem sido vivida na poalha do Che, de sua passagem por África, em especial com sua guerrilha no Congo (esse assunto inesgotável que África tarda em coerentemente decifrar), por que a IIª coluna do Che faz parte da história do MPLA e a estreita aliança de Cuba Revolucionária com Angola tem perseguido, com muitos momentos decisivos, essa poalha do Che, também interpretada pelos maiores da Luta de Libertação em África, por Amílcar Cabral, por Agostinho Neto, por Samora Machel, por Sam Nujoma, por Mugabe, por Oliver Thambo, por Nyerere, por Laurent Kabila, por Thomas Sankara…

Essa poalha tornada vida é própria até de muitos companheiros que sobreviveram ao Che e, entre eles, destaco os exemplos de Rafel Moracén e de Viktor Drecke…

POLÍTICAS DO "ARCO DA GOVERNAÇÃO" INCENDEIAM IMPUNEMENTE PORTUGAL






Mário Motta, Lisboa

O inferno voltou a emergir em Portugal, mais concretamente na região centro, novamente, para além de aqui e ali no retângulo luso. Por esta hora o balanço é de 35 mortos e mais de 50 feridos, alguns graves.

A fotografia documenta de modo dantesco o que é o inferno nas zonas mais afetadas pelos fogos. A imagem é referente a Vieira de Leiria, de autor que não conseguimos apurar mas que pela sua expressão realista foi adotada pela ONU numa das suas páginas online. Ao fundo o Pinhal de Leiria, monumento nacional que foi devastado em 80% da riqueza natural de pinheiro bravo e manso. A importância deste pinhal na contribuição da construção de naus que zarpavam rumo ao desconhecido e a que chamaram os descobrimentos foi crucial. Dos pinheiros foi fruto a madeira que navegou contra ventos, marés e tempestades dos marinheiros portugueses que deram mundos ao mundo.

Muito se diz sobre a origem dos fogos. Há relatórios a despencar após eleboração de várias entidades. Há responsabilidades que não são de agora mas de há mais de 20 anos. Estes fogos infernais são o resultado das alterações climáticas, de incendiários, da EDP (como pode ler no título a seguir), disto e daquilo, mas principalmente das políticas erradas de três partidos políticos que têm sido sempre governo interpoladamente: o CDS, o PSD, o PS. Têm sido ministros e secretários de Estado seus (arco da governação) que conduziram ao descalabro e abandono, à anarquia, a que a floresta portuguesa tem estado votada. Abandono, puro e duro. Insensibilidade. Incompetência. Medidas economicistas que também abandonaram os cuidados a ter com as populações que circulam ou residem e laboram nas redondezas das florestas.

Antes, em Pedrógão, há dois meses, o saldo foi de 64 mortos e vários feridos. Hoje o saldo é de mais 35 mortos - um bebé de um mês incluído - 99 mortos no total. E os números ainda são provisórios relativamente aos fogos de ontem e de hoje. Bem podem declarar dias de luto nacional, e conferências de imprensa. Bem pode a atual oposição parlamentar e política "ladrar" a fim de retirar dividendos. Bem pode o PS, atual governo, dizer assim e assado... que de nada vale perante os portugueses que foram literalmente esturricados e pereceram perante as labaredas incontroláveis. De nada vale o que disserem e fizerem aqueles três partidos políticos ou os seus dirigentes e militantes aduladores. O que urge fazer é repensar a defesa da floresta e das populações com os que sabem como fazê-lo, sem lugar a boys e girls das simpatias partidárias dos que foram ou atualmente são governo.

Foram os governos anteriores dos chamados partidos políticos do "arco da governação" que acenderam os fogos que consomem o país e os portugueses que tiveram mortes horríveis. Impunemente, já se sabe. Porque as culpas, o apuramento das responsabilidades com reais consequências, morre sempre solteira. Só a impunidade não arde nas chamas dos incendiários que definiram erradamente, por vezes criminosamente, as políticas a aplicar na gestão e defesa das florestas e das populações vizinhas.

A tristeza e o repúdio mora em casa dos portugueses que ainda distam alguns quilómetros do teatro das chamas que dançam macabramente por muitos hectares do país. Ainda mais tristeza, saudade, dor e revolta, invade os que perderam os seus familiares. Que importa isso se a impunidade é absoluta e até premeia os que são responsáveis por hecatombes de fogos, de pontes caídas, da corrupção e do que mais vier de mal para vitimar os cidadãos portugueses. 

E assim vai Portugal, uns quantos vão bem e muitos milhões vão mal. Estão mal, ainda mais porque acreditam em políticos que se enquadram em molduras criminosas. E votam neles, em busca das desgraças que ainda mais nos hão-de vitimar. É sempre a mesma coisa... nas escolhas, no voto, nas eleições. E daí também há responsabilidade dos eleitores, dos cidadãos.

Abram os olhos, mulas. Diziam os da antiguidade. Pois.

Pedrógão: EDP na origem das chamas e um segundo fogo fora dos registos oficiais



São as conclusões de relatório encomendado pelo Ministério da Administração Interna à Universidade de Coimbra sobre o incêndio de Pedrógão Grande.

Uma linha de média tensão da EDP esteve na origem do grande incêndio de Pedrógão Grande e um dos dois fogos que esteve na origem dessas chamas nem sequer aparece nos registos oficiais. A conclusão é do relatório encomendado pelo Ministério da Administração Interna à Universidade de Coimbra.

O documento com quase 250 páginas (que está a ser lido pela TSF) é muito critico quanto ao combate a este fogo que matou 64 pessoas. Um incêndio que segundo estes especialistas começou numa linha elétrica.

A equipa da Universidade de Coimbra garante que o incêndio mais grave daquele dia, 17 de junho, nasceu de duas ignições que terão sido causadas por contactos entre a vegetação e uma linha elétrica de média tensão. E logo aí começa o tom critico do relatório ao sublinhar que essa origem das chamas revela, desde logo, "uma deficiente gestão de combustíveis na faixa de proteção da linha, por parte da entidade gestora"a EDP.

Os especialistas são claros a dizer que as faixas de proteção da rede elétrica de média tensão EDP não estão "devidamente cuidadas" pelo que a empresa deve aumentar a fiscalização.

Outro problema grave foi o combate inicial ao fogo que afinal nasceu de duas ignições. Uma, já se sabia, em Escalos Fundeiros e outra em Regadas, sendo em Regadas que está um dos maiores mistérios deste fogo.

O relatório garante que este fogo foi "menosprezado", "tendo até à junção com o incêndio de Escalos Fundeiros, apenas um meio pesado de combate terrestre", ou seja, um camião dos bombeiros. Ainda mais estranho: o relatório garante que não há qualquer registo oficial deste incêndio que segundo os especialistas foi de grande relevância para a devastação causada em Pedrógão Grande.

"Várias entidades desconheciam mesmo que o incêndio de Regadas tivesse existido".

Nuno Guedes | TSF

sábado, 14 de outubro de 2017

A Primeira Greve Geral de Porto Alegre e o líder negro Francisco Xavier da Costa (1871-1934)


Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite* | Porto Alegre | Brasil 

Há 111 anos, em outubro de 1906, ocorreu a primeira Greve Geral em Porto Alegre, conhecida como a “Greve dos 21 dias”, que reivindicou, entre outras coisas, oito horas de trabalho. Contando em torno de 3.500 operários, estes ocuparam as ruas e praças de Porto Alegre. Uma característica desta greve foi o número expressivo de trabalhadores estrangeiros e de mulheres operárias.

O intendente (prefeito) de Porto Alegre, na época, era o engenheiro José Montaury (1858-1939), e Antônio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961) governava o Estado. A ideia de uma paralisação se gerou entre os marmoristas, que se reuniam na Escola Eliseu Reclus, na Rua dos Andradas nº 64, sob o comando do líder anarquista Polidoro Santos (1881-1924),
  Já o grupo socialista era representado pelo líder negro, gráfico e jornalista Francisco Xavier da Costa (1871-1934) e por Carlos Cavaco (1878-1961). O primeiro criou, em 1897, o Partido Socialista Rio-Grandense, e o segundo, considerado o “verbo de fogo”, incendiou, com sua oratória, a classe trabalhadora. Ambos fundaram, em 1906, a Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS).

Além dos marmoristas, outras categorias aderiram à Greve, como carpinteiros, marceneiros, pintores, alfaiates, tecelões e estivadores. Após oito dias, a paralisação dos serviços industriais era quase total. Os comerciários aderiram quando esta se encontrava em sua fase final.ideias criativas para ganhar dinheiro
 Quanto à sua condução, os anarquistas defendiam a neutralidade e a independência política dos sindicatos, divergindo nesta questão do grupo socialista. A discussão na imprensa ocorria entre jornal anarquista A Luta, relançado, em 1906, por Polidoro  Santos e pelo gráfico José Rey Gil, e o jornal socialista, A Democracia (1905-1908), criado pelo líder Francisco Xavier da Costa. Um verdadeiro duelo de palavras ocorria entre os seus redatores.

No decorrer da Greve, Alberto Bins (1869 - 1957) - representante dos industriais – e o líder Francisco Xavier da Costa chegaram a um acordo, no qual ficou estabelecido a jornada de trabalho de nove horas. ideias criativas para ganhar dinheiro

Embora as diferenças, no campo ideológico, anarquistas e socialistas tinham objetivos, em comum, como lutar por melhores condições de trabalho, reduzir a excessiva carga horária do operário, exigir aumento salarial, além de denunciar os maus tratos sofridos pelos operários. Durante a greve, o policiamento foi ostensivo, e os piquetes tentavam impedir os chamados “fura-greves”. No dia 9 de outubro de 1906, os operários descontentes quanto à proposta, da classe patronal, de 9h diárias, decidiram permanecer em greve. Seguiram-se várias prisões…
   
Em 21 de outubro de 1906, a greve chegou ao seu término, embora os conflitos, entre operários e patrões, continuassem. Os anarquistas, por meio do jornal A Luta, denunciavam que, ao contrário do que outros jornais divulgavam, ocorriam punições e demissões, quando o operário retornava ao trabalho. As arbitrariedades, com certeza, eram resultado da ausência, na época, de uma legislação trabalhista, que garantisse os direitos dos operários. Encerrada a greve, a categoria dos marmoristas, que deu início à greve, seguiu na luta até conquistar a carga diária de oito horas.     

De acordo com o jornalista João Batista Marçal, o líder socialista Francisco Xavier da Costa se deixou envolver pelo jogo da política burguesa. Ao perder espaço, na FORGS, para os anarquistas, ele concorreu, em 1912, pelo Partido Republicano Rio-Grandense (PPR). Eleito, em 1912, com 4337 votos, foi o primeiro vereador negro de Porto Alegre.  A Greve Geral de 1906 foi um marco da luta operária em nosso Estado.

*Pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Musecom


Imagens:  
1 - Polidoro Santos  / Acervo de Isabel Bilhão  
2 Jornal anarquista A Luta de 1906  Acervo de João Batista Marçal 
3 - Líder negro Francisco Xavier da Costa e seu jornal A Democracia (1906-1908)

Bibliografia:
MARÇAL, João Batista. A Imprensa Operária do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2004.
MARÇAL João Batista; MARTINS, Mariângela.  Dicionário Ilustrado da Esquerda Gaúcha. Porto Alegre : Libretos, 2008.
SCHMIDT , Benito Bisso. De Marmore e de Flores: a Primeira Greve Geral do RS / Porto Alegre, Outubro de 1906.  Porto Alegre : Editora da UFRGS,2005.

ANGOLA | A força do Governo saído das eleições



José Ribeiro | Jornal de Angola | opinião

O Governo saído das eleições entra em funções com uma elevadíssima quota de legitimidade política para levar por diante o programa sufragado nas urnas pelo povo.


Além de marcar a primeira transição política de liderança por via democrática em Angola, o que já, só por aí, lhe dá um grande poder discursivo e argumentativo, a vitória de João Lourenço e do MPLA por maioria qualificada abre um importante espaço de manobra política para os cinco anos de mandato.

Transportando ainda o valioso legado deixado pelos antecessores, base sobre a qual assentará a acção do Executivo, o poder democrático do Governo de João Lourenço e do MPLA é vasto, no quadro, evidentemente, daquilo que são os limites comumente reconhecidos.

O Governo tem também a enorme vantagem de reunir à sua volta toda a disponbilidade e solidariedade dos quadros nacionais e das populações para começar a fazer o seu trabalho. Geralmente, nos períodos após eleições, a essa posição de esperança diante do que aí vem de positivo, se chama expectativa. Mas em Angola, por causa, talvez, do sofrimento gerado pela guerra, essa atitude é particularmente sincera. As pessoas querem trabalhar e ver as coisas a andar, seja a que preço for, pois se isso acontecer, todos terão a ganhar. Essa postura ficou bem expressa no momento da paz, quando todos os angolanos se uniram à volta do nome “Angola”, vieram trabalhar para a terra e trouxeram outros. Este é um grande capital com que contam, hoje ainda, os nossos novos governantes.

No lema eleitoral de campanha do MPLA, “Corrigir o que está mal, Melhorar o que está bem”, ficou bem vincada a manifestação de vontade e de bondade dos nossos dirigentes políticos. Mas o “slogan” faz também repousar sobre o Governo uma grande responsabilidade face aos desafios que enfrenta. Além de corrigir e melhorar o que está feito, é preciso fazer coisas novas, mostrando que não vamos ficar apenas agarrados ao passado, mas ter os olhos postos no futuro, o que exige não somente vontade política e bondade, mas também estudo e elaboração de novas políticas e medidas acertadas, algumas das quais parecerão provavelmente impopulares, mas serão importantes para a economia e as populações.